3 min de leitura

Quarenta Anos e Um Caderno Por Década

Quatro cadernos, um para cada década, escritos por ambos. O que contêm não é o que nenhum dos dois esperava quando começaram.

Quarenta Anos e Um Caderno Por Década

Há quatro cadernos. O primeiro é um caderno escolar e está quase ilegível. O quarto está meio vazio e ambos têm consciência do que isso significa.

A regra, inalterada desde 1986, é uma entrada por semana, escrita por quem se lembrar, e lida pelo outro antes de a seguinte ser adicionada.

O que está neles

Quase nada importante, se a importância for medida como as pessoas costumam medir.

Há uma entrada para a semana em que compraram a casa, com quatro linhas, e duas delas são sobre um problema com a vistoria. Não há entrada nenhuma para a semana em que o primeiro filho nasceu, algo que descobriram por volta de 2004 e acharam mais engraçado do que esperavam.

O que está neles, em vez disso, é a textura. O tempo. O que comeram ao jantar um número absurdo de vezes. Uma queixa constante sobre um vizinho que dura de 1991 a 1997 e depois para sem explicação. Todos os carros que tiveram, com opiniões.

Propuseram-se a registar um casamento e acidentalmente registaram uma vida, que acabou por ser a mesma coisa.

O que não planearam

Nenhum deles tencionava reler os cadernos. Eram um hábito, não um arquivo.

A primeira vez que leram um atentamente foi por volta de 1998, à procura da data de algo para um seguro. Encontraram a data e depois ficaram sentados no chão durante três horas.

O que impressionou a ambos foi como as suas memórias estavam erradas. Não sobre os acontecimentos, que estavam mais ou menos certos, mas sobre a sequência e o estado de espírito. Um período de que ambos se lembravam como difícil revela-se, no registo, conter uma grande quantidade de entradas alegres. Um ano de que se lembravam como bom contém um período de seis meses em que nenhum dos dois escreveu nada além de uma linha por semana, o que ela diz ser a coisa mais barulhenta de todos os quatro livros.

O período de silêncio

Esses seis meses, em 1993, são agora discutidos abertamente por eles, embora não tenham sido discutidos de todo na altura.

As entradas são: "Tudo bem." "Nada de especial." "Frio." Vinte e quatro semanas disto, alternando a caligrafia.

Ele diz que não se lembra do que estava mal. Ela diz que se lembra e que não foi apenas uma coisa, e que o de que se lembra mais claramente é do momento semanal de pegar na caneta e decidir, novamente, não o fazer.

Nenhum dos dois acha que o caderno falhou. O que ele fez foi criar um artefacto do silêncio, o que significou que, cinco anos mais tarde, puderam vê-lo, algo que não teriam conseguido fazer apenas pela memória.

O que diriam a quem está a começar

Não escreva para um leitor. As entradas escritas para serem lidas mais tarde são as piores e fáceis de identificar, e há uma série delas em 1988 que ainda o deixa envergonhado.

Escreva mal e de forma breve. As semanas em que alguém escreveu meia página são geralmente semanas em que alguém tinha algo a evitar.

Deixe apenas uma pessoa escrever. Tentaram, duas vezes, que ambos escrevessem todas as semanas e correu mal em ambas, porque se tornou uma obrigação para quem estava mais ocupado.

E mantenha as entradas aborrecidas. Ela é enfática quanto a isto. As entradas aborrecidas são o que torna as interessantes legíveis, porque uma nota sobre uma semana má em 1996 não significa nada a menos que consiga ver as quarenta semanas banais à sua volta.

O quarto caderno

Está meio vazio. Estão no final dos seus sessenta anos. Ambos repararam e nenhum dos dois disse nada sobre o que acontece quando estiver terminado.

Ele começou, no último ano, a escrever entradas ligeiramente mais longas. Ela reparou nisso e não mencionou o assunto.

A neta deles usa uma aplicação que faz aos dois parceiros a mesma pergunta todos os dias e guarda as respostas até que ambos tenham escrito. Ela mostrou-lhes. Concordaram que era a mesma ideia e que provavelmente lhes teria servido bem aos trinta anos. Nenhum dos dois vai mudar, por razões que não têm nada a ver com o formato.

Nomes e detalhes alterados; o casal é uma composição.

Dúvidas comuns

Manter um diário partilhado é bom para um relacionamento?
Os casais que o fazem tendem a valorizar o registo menos pelo seu conteúdo do que pelo que ele revela sobre períodos de que se lembram mal, especialmente momentos de silêncio.
Ambos os parceiros devem escrever num diário de casal?
Exigir que ambos escrevam sempre tende a transformar o hábito numa obrigação e o sistema falha. Alternar, ou escrever quem se lembrar, dura muito mais tempo.
O que se deve escrever num diário de relacionamento?
Detalhes banais em vez de grandes acontecimentos. As entradas comuns são o que torna visível um período invulgar anos mais tarde.

Continuar lendo