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A Fazenda e a Cidade: Duas Vidas, Um Casamento

Ele não podia deixar a terra e ela não podia viver nela. Construíram um casamento a noventa quilómetros de distância sem o considerar um compromisso.

A Fazenda e a Cidade: Duas Vidas, Um Casamento

A fazenda estava na família dele há quatro gerações e não era, em nenhum sentido que ele pudesse explicar rapidamente, algo que pudesse vender. O hospital onde ela trabalhava ficava a noventa quilómetros de distância e não era algo que ela quisesse deixar.

Casaram-se no terceiro ano e só foram morar juntos no vigésimo segundo, e ambos descrevem esses vinte e dois anos como a melhor parte.

O acordo

Ela ficava na fazenda de sexta-feira à noite a segunda-feira de manhã, e na cidade o resto da semana. Ele ia à cidade talvez uma noite por quinzena e odiava, o que ela achou engraçado durante os primeiros dez anos, depois deixou de achar e depois voltou a achar.

Na época da parição ela ia menos. No inverno, mais.

Ninguém em nenhuma das famílias achava que aquilo era um casamento. A mãe dela perguntou durante onze anos consecutivos quando é que eles se iam organizar.

Eles não estavam à espera que o acordo terminasse. Essa era a parte que mais ninguém conseguia ouvir.

O custo

Ele passava muito tempo sozinho, o que lhe convinha e que agora diz que lhe convinha menos do que afirmava na altura.

Ela perdeu coisas. O funeral de um vizinho, um bezerro que não sobreviveu, uma semana em fevereiro em que os canos congelaram e ele resolveu tudo sozinho sem mencionar nada até sexta-feira.

Este último é o exemplo que ela usa. Ela diz que a perda específica num acordo como o deles não são os grandes eventos, mas os dias maus banais, que já passaram quando voltam a ver-se e que, por isso, nunca chegam a ser contados.

O que fizeram em relação a isso

O telefone não servia de nada. Ele não é pessoa de falar ao telefone, e uma chamada de um homem que não é de telefones consiste em quatro frases sobre o tempo e um silêncio.

O que funcionou foi escrever, o que surpreendeu os dois, porque ele tinha deixado a escola aos dezasseis anos e desde então nunca tinha escrito nada mais longo do que um formulário.

Começou como uma lista na mesa da cozinha da fazenda: coisas que ela devia saber quando chegasse. Práticas. Depois ganhou linhas que não eram práticas, transformou-se em dois cadernos, um em cada casa, e na última década num telefone.

As anotações dele são curtas. As dela são mais longas. Ela diz que a diferença de tamanho a incomodou durante cerca de dois anos, até perceber que as quatro linhas dele continham mais do que as quinze dela.

A regra da chegada

A regra, feita no início e cumprida, era que a primeira hora após a chegada dela não servia para pôr a conversa em dia.

Isto parece ao contrário e foi deliberado. Ambos tinham notado que um fim de semana que começava com um relatório completo da semana se transformava numa reunião administrativa, e que quando terminava já era sábado à tarde e nenhum deles tinha estado realmente na mesma divisão.

Por isso a primeira hora era nada. Chá, os cães, passear pelo quintal. A semana era contada aos pedaços ao longo de dois dias, nos intervalos, que era como teria sido contada se estivessem a morar juntos.

O vigésimo terceiro ano

Ele vendeu o rebanho e ficou com a terra, ela reformou-se e vivem na mesma casa há uma década.

Ela diz que demorou cerca de dezoito meses a adaptar-se e que a adaptação foi mais difícil do que os vinte e dois anos.

A dificuldade específica foi que a presença substituiu o contar. Tinham passado duas décadas num casamento onde tudo tinha de ser dito, porque nada podia ser testemunhado, e agora que tudo podia ser testemunhado, deixaram de o dizer, e ambos sentiram a perda antes que qualquer um a pudesse nomear.

A escrita voltou ao fim de cerca de dois anos. Agora é mais curta, acontece à noite e nenhum deles a descreveria como importante, o que ela diz ser uma mentira que ele conta às visitas.

O que eles dizem sobre o assunto

Ele diz que as pessoas pensam que a parte difícil foi estarem afastados. A parte difícil foi estarem juntos sem o hábito que a distância lhes tinha imposto.

Ela diz que o acordo não foi um compromisso e que está cansada de lhe perguntarem qual dos dois cedeu. Nenhum cedeu. O objetivo era esse.

Nomes e detalhes alterados; o casal é uma composição.

Dúvidas comuns

Um casamento pode funcionar com duas casas separadas?
Sim, e muitos funcionam durante décadas. Exige um contacto deliberado para substituir o que a proximidade oferece de graça, e o acordo de que é uma escolha e não algo temporário.
O que perdem os casais que vivem separados?
Sobretudo os dias maus banais. Os grandes acontecimentos são contados; as pequenas dificuldades passam antes do encontro seguinte e nunca chegam a ser ditas.
É difícil ir morar juntos depois de anos a viver separados?
Muitas vezes é mais difícil do que a própria separação. A presença tende a substituir o relato, e casais que dependiam da comunicação explícita podem perdê-la sem perceber.

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